sexta-feira, 2 de outubro de 2015


A revolta ao seu redor

O cotidiano daqueles que deixam a sua marca pelas cidades






Tão comum nas maiores capitais e centros urbanos do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, a pichação em Vitória tem números crescentes e a revolta de moradores dos bairros mais atingidos por essa mistura de revolta, arte, cultura e vandalismo. Com um pouco de tudo isso agregado a músicas que relatam o cotidiano dos pichadores, a influência cultural vai se ratificando na Grande Vitória, principalemente nos bairros de Jardim da Penha, Jardim Camburi e no Centro.

Escrever com a lata de spray em praticamente qualquer superfície, como no alto dos prédios, casas abandonadas e monumentos históricos podem render ao vândalo uma multa de até R$ 7.000,00, muitas vezes convertidas em cestas básicas e serviços comunitários, dependendo da gravidade da ação. “Por ser uma atividade ilegal, trás algumas consequências, como processos e o perigo de moradores “heróis” que buscam a justiça com as próprias mãos. Mas é o preço que se paga. No meu caso foi o processo”, explica aos risos MLS.



Mas não só de tags(assinatura dos pichadores) se formam os grandes painéis de pichação pela cidade. Existem aqueles que adotam a filosofia de passar uma mensagem, com frases de efeitos e reivindicações sobre o nosso cotidiano. Esses, por sua vez, por interagirem mais com o cidadão comum que consegue decifrar e compreender melhor sua caligrafia, são mais aceitos e também fazem parte da cultura de rua da cidade. “São válidos todos os tipos de manifestações, desde que o autor viva o que escreveu”, afirma PLT, pichador há mais de cinco anos.

O fato de não ser bem compreendido ainda implica em muita repressão e tira o foco de coisas maiores que acontecem no cotidiano da cidade. Políticos capixabas aproveitaram a ascenção das pichações para camuflar outros grandes problemas da vida noturna, que em sua grande maioria tem muito mais impacto do que um tipo de arte que se comunica somente com os seus praticantes.




O que existe por trás das letras coloridas dos muros

Aceita para camuflar as pichações, o verdadeiro grafite se apropria das mesmas características

Tomando espaço nas mais diversas galerias e exposições mundo afora, o Brasil tem hoje grandes represententes da cultura de rua mostrando sua arte não apenas nas ruas, e agindo diretamente contra o preconceito que ainda cerca o assunto. Como solução para evitar as pichações, o grafite é uma vertente diferente de seu primo próximo. Ele usa mais cores, logo atrai mais olhares e diferentes percepções que vão das letras até desenhos que parecem realmente sair da parede.

Oriunda da periferia americana dos anos 70, muitos ainda defendem que o verdadeiro grafite deve ser feito sem permissão, ou seja, deve causar o mesmo espanto que as pichações causam. “Não existe Grafite legalizado. O Grafite, em sua essência é uma atividade ilegal, usada tanto como forma de protesto, contra o governo, contra a propriedade privada, a desigualdade social, ou de gênero, pela causa que o praticante ache válida, ou apenas como forma de adrenalina”, explica Lamica, que além de pichar também faz grafites.

Mas, como em qualquer lugar onde se existem regras impostas e acordadas pelos próprios participantes do meio. A rua traz uma ética que se não respeitada pode acabar com acertos de contas e, claro, degradação de suas criações. Se por exemplo um grafiteiro pintar por cima de um mural de pichações, ele terá no mínimo sua arte rasurada. “Tem que existir o respeito das duas partes. Quem chega primeiro sempre tem razão, independente de tinta ou do muro. Muitos grafiteiros de Vitória também são pichadores, e isso torna o erro menos aceitável”, diz MNB, que morava em Belo Horizonte e traz a sua concepção interestadual para o cenário capixaba.


Mesmo com riscos de diversos os lados, os artistas de rua continuam a criar suas obras a céu aberto pelos mais variados espaços e superfícies que a cidade proporciona, fazendo da madrugada uma hora sagrada. Com a diversão na calada da noite, a mistura de paixão e arte se sobrepõe ao medo do ilegal, trazendo histórias impressionantes de seu cotidiano, muitas vezes implublicáveis. “Na noite de natal, quando sai para pintar e conheci um noia, o Carlos, ele que fez a escolta (vigiando a jovem para avisá-la em caso de polícia ou morador). E ainda falou qual lugar era melhor pra fazer, é certo que ele vai ficar marcado”, conta Lamica ao lembrar-se de um caso incomum durante uma madrugada de ações.
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