A revolta ao seu redor
O cotidiano daqueles que
deixam a sua marca pelas cidades
Tão comum nas maiores
capitais e centros urbanos do país, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo
Horizonte, a pichação em Vitória tem números crescentes e a revolta de moradores
dos bairros mais atingidos por essa mistura de revolta, arte, cultura e
vandalismo. Com um pouco de tudo isso agregado a músicas que relatam o
cotidiano dos pichadores, a influência cultural vai se ratificando na Grande
Vitória, principalemente nos bairros de Jardim da Penha, Jardim Camburi e no
Centro.
Escrever com a lata de spray
em praticamente qualquer superfície, como no alto dos prédios, casas
abandonadas e monumentos históricos podem render ao vândalo uma multa de até R$
7.000,00, muitas vezes convertidas em cestas básicas e serviços comunitários,
dependendo da gravidade da ação. “Por ser
uma atividade ilegal, trás algumas consequências, como processos e o perigo de
moradores “heróis” que buscam a justiça com as próprias mãos. Mas é o preço que
se paga. No meu caso foi o processo”, explica aos risos MLS.
Mas não só de
tags(assinatura dos pichadores) se formam os grandes painéis de pichação pela
cidade. Existem aqueles que adotam a filosofia de passar uma mensagem, com
frases de efeitos e reivindicações sobre o nosso cotidiano. Esses, por sua vez,
por interagirem mais com o cidadão comum que consegue decifrar e compreender
melhor sua caligrafia, são mais aceitos e também fazem parte da cultura de rua
da cidade. “São válidos todos os tipos de manifestações, desde que o autor viva
o que escreveu”, afirma PLT, pichador há mais de cinco anos.
O fato de não ser bem
compreendido ainda implica em muita repressão e tira o foco de coisas maiores
que acontecem no cotidiano da cidade. Políticos capixabas aproveitaram a
ascenção das pichações para camuflar outros grandes problemas da vida noturna,
que em sua grande maioria tem muito mais impacto do que um tipo de arte que se
comunica somente com os seus praticantes.
O que existe por trás das letras coloridas dos muros
Aceita para camuflar as pichações, o verdadeiro grafite
se apropria das mesmas características
Oriunda da periferia
americana dos anos 70, muitos ainda defendem que o verdadeiro grafite deve ser
feito sem permissão, ou seja, deve causar o mesmo espanto que as pichações
causam. “Não existe Grafite legalizado. O Grafite, em sua
essência é uma atividade ilegal, usada tanto como forma de protesto, contra o
governo, contra a propriedade privada, a desigualdade social, ou de gênero,
pela causa que o praticante ache válida, ou apenas como forma de adrenalina”,
explica Lamica, que além de pichar também faz grafites.
Mas, como em qualquer lugar
onde se existem regras impostas e acordadas pelos próprios participantes do
meio. A rua traz uma ética que se não respeitada pode acabar com acertos de
contas e, claro, degradação de suas criações. Se por exemplo um grafiteiro
pintar por cima de um mural de pichações, ele terá no mínimo sua arte rasurada.
“Tem que existir o respeito das duas partes. Quem chega primeiro sempre tem
razão, independente de tinta ou do muro. Muitos grafiteiros de Vitória também
são pichadores, e isso torna o erro menos aceitável”, diz MNB, que morava em
Belo Horizonte e traz a sua concepção interestadual para o cenário capixaba.
Mesmo com riscos de diversos
os lados, os artistas de rua continuam a criar suas obras a céu aberto pelos
mais variados espaços e superfícies que a cidade proporciona, fazendo da
madrugada uma hora sagrada. Com a diversão na calada da noite, a mistura de
paixão e arte se sobrepõe ao medo do ilegal, trazendo histórias impressionantes
de seu cotidiano, muitas vezes implublicáveis. “Na noite de natal, quando sai
para pintar e conheci um noia, o Carlos, ele que fez a escolta (vigiando a
jovem para avisá-la em caso de polícia ou morador). E ainda falou qual lugar
era melhor pra fazer, é certo que ele vai ficar marcado”, conta Lamica ao
lembrar-se de um caso incomum durante uma madrugada de ações.




0 comentários:
Postar um comentário